domingo, maio 06, 2012

Sobre um triângulo amoroso inusitado


Daisy Kenyon é um filme estadunidense de 1947 dos gêneros drama e romance produzido e dirigido por Otto Preminger para a 20th Century Fox. A história é sobre um triângulo amoroso acontecido na época do pós-guerra. O roteiro de David Hertz foi baseada na novela homônima publicada em 1945 de autoria de Elizabeth Janeway. Daisy Kenyon (Joan Crawford) é uma artista em Manhattan e tem um caso amoroso com o advogado casado Dan O'Mara (Dana Andrews), que mantém a sociedade de um importante escritório com o sogro rico. Daisy se encontra com o veterano de guerra e viúvo Peter Lapham (Henry Fonda) e mesmo hesitando, aceita se casar com ele. Dan continua a ir atrás dela e sua esposa Lucille acaba descobrindo o caso e pede o divórcio.




Dentre os muitos elementos marcantes do filme, existe um que dificilmente não é percebido: o telefone, objeto operante como um verdadeiro personagem neste notável melodrama de Otto Preminger, uma produção que chama atenção por não ser o que aparenta. Ironicamente, este é um dos principais argumentos do filme, tentar retratar relações amorosas cujos contratempos em função de seu interior desconhecido revelam a complexidade acerca dos sentimentos humanos. O trabalho de Preminger constrói a fotografia do filme com uso específico de luz e sombra, o que facilmente iria caracterizá-lo como film-noir. No entanto, o cerne de seu mise en scène revela-se durante a sessão com um apelo muito mais preso a dar ambiente às sensações do exuberante romance do que atingir o espectador com uma qualidade de tensão sinistra ou criminal, como seria descrito o gênero em termos restritos. Muito menos de Joan Crawford se poderia dizer que é uma Femme Fatale. Daisy Kenyon é um tipo de personagem que Crawford interpreta com segurança, uma mulher frustrada e confusa. Dividida entre dois amores, Daisy precisa se decidir e sua escolha foi construída de maneira curiosa, levando em consideração a direção minuciosa e racional de Preminger. Os dois amores, Henry Fonda como veterano de guerra/designer de barcos sereno e perspicaz, símbolo de estabilidade; Dana Andrews como o advogado com lábia, filhos e já casado, que tira o fôlego da protagonista, a razão da agonia de Daisy Kenyon. Fonda e Andrews estão ambos ótimos neste triângulo amoroso que merece o prêmio do mais esquisito já feito na história do cinema hollywoodiano. 


Embora o desencadear da maioria dos eventos se dão de maneira clichê, é interessante – por excelência – observar como este retrato de relações amorosas e humanas de Preminger provoca os ideais americanos, incluindo ainda a questão da grande guerra e sua consequência moralista para a trama. Os primeiros entraves sociais em Daisy Kenyon se desdobram a partir do casamento de Kenyon com o personagem de Fonda (Peter Lapham), primeiramente por se sentir frustrada com o fato do personagem de Andrews (Dan O'Mara) não ter largado a esposa por ela e depois por querer estabilidade para sua vida. Contudo, os elementos críticos mais polidos deste melodrama surgem com o melhor conhecimento dos personagens, e o entendimento que muitos deles tem em comum o triste fato de já terem sido substituídos por alguém. Dan O'Mara deve largar sua mulher e filhas pela amante Daisy se ele a ama? Peter Lampham possui intenções honestas quando casa alegando precisar de alguém e não se importando com o fato de que Daisy ama outro? Perguntas como estas não são expressas na trama de maneira convencional, como costumam aprovar personagens sobrecarregados pela culpa sob a qual nossa sociedade estrutural se debruça. Pelo contrário, Daisy não é punida por ser amante. A esposa traída de O'Mara chega a reconhecer que fez mal em abrir o processo e magoou a amante, algo realmente inusitado. Não há brigas e os dois galãs apaixonados por Daisy não se pegam no tapa por ela, mas conversam civilizadamente. Tudo isso indica a racionalidade de Preminger ao conduzir a história que satiriza implicitamente muitos ideais e questões pré-concebidas sobre papéis sociais e suas derivações, sejam elas no que compreende o certo e o errado, concepções que deveriam variar, mas foram delimitadas fortemente na nossa cultura. Este poderoso argumento no filme chega bem próximo de superar os seus clichês e pode servir de subsídio para muitas discussões sociológicas. A subestimada Daisy Kenyon merece reconhecimento por valer muito enquanto filme-constatação de um ensinamento mais que valioso, isto é, o processo de substituição amorosa será sempre um fracasso e, no caso de Daisy, há também a vitória da racionalidade sobre a emoção. Agora observe a imagem abaixo da cena em que o triângulo discute a relação.


Imagem emprestada do honroso acervo de imagens Dr. Macro. 
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Não percebe algo inusitado?




E agora?!

Lendo esta interessante metáfora imagética, entrego-me lunaticamente a esta inusitada trama. Perceba como as escolhas alcoólicas de Daisy e Dan são parecidas e acabam representando o sentimento lascivo que os une. O resultado disso não é bom e a prova disto é o curativo na testa de Dan, indicando a briga que tiveram outrora. Em contrapartida, a bebida de Peter que pode aparentar uma escolha enfadonha, como um refresco, tem um destaque na cena quando o garçom as deixa. Assim como o encontro de seu rosto com o de Daisy que representa a tendência da protagonista a optar pela estabilidade, encontrada no personagem de Peter, viúvo, 24 horas poeta e disposto a amar. Além de formar perfeitamente um coração. Nisto, então, há um paradoxo. Embora Daisy prefira a estabilidade, a sedução que encontrou no homem casado lhe parece ser algo difícil de abrir mão. Vice-e-versa.

Entre o amor e o pecado.

quinta-feira, abril 26, 2012

Tudo Sobre Eva


Em "Queen Bee" (1955), Joan Crawford foi incumbida de ser a abelha-rainha como manda o figurino, soltando os ferrões, sutis e mortais. Uma narrativa menos surpreendente do que se esperaria, marcada excepcionalmente por agradar aos fãs da atriz com frases de efeito sarcástico e elegante. O figurino magnífico de Jean Louis veste a maliciosa personagem de Crawford (Eva Phillips), uma mulher solitária que tortura os outros com os subsídios de suas frustrações. Este drama de temática familiar foi dirigido por Ranald MacDougall, conhecido pelo roteiro de "Mildred Pierce" (1945), e constrói personagens muito interessantes. A narrativa parte da ideia comum da pessoa que visita determinada casa habitada por uma família cujas dificuldades de convivência e conflitos afetivos não estão aparentes, podendo desdobrá-los gradativamente conforme o visitante se envolve com cada um deles. Fórmula que eu chamaria de "A Visita", utilizada algumas vezes pelo escritor Tennessee Williams em textos como "Gata em Teto de Zinco Quente", "Um Bonde Chamado Desejo", além de outras que reviram como nunca o passado, em "Sonata de Outono" de Ingmar Bergman, ou a comédia britânica de humor negro "O Aniversário" com Bette Davis, de Roy Ward Baker.
 Jennifer é uma garota bonita, ingênua e amistosa que visita, a convite da prima Eva Phillips, a casa dos seus familiares sulistas, em Georgia. Quando chega, depara-se com a cunhada de Eva, Carol Lee Phillips (interpretada pela famosa Betsy Palmer de "Sexta-Feira 13"), o marido bebum Avery Phillips que se refugia no álcool para se esquecer das frustrações matrimoniais e tem uma cicatriz, cujo horror é ironizado pela esposa Eva com o apelido "Beauty" ao marido. A garota se assusta com o astral esquisito em que a casa está imersa e chega até a achar que tem culpa por isso. Posteriormente, compreenderia o passado glorioso e depravado de Eva que inclui affairs com homens casados e ainda com o bonitão Judson, administrador na fábrica do grande amigo Avery, pretendente de Carol no tempo presente da narrativa. A forma com a qual o filme desvela o seu tempo psicológico, indicando as condições trágicas dos eventos anteriores à chegada de Jennifer, funciona muito bem e, não obstante ao ponto final descartável da trama, merece cuidado ao ser analisado. Joan Crawford como Eva está uma vilã adorável que desfila com suas maneiras ofensivas e elegantes, procurando o defeito em todos para poder destroça-los sem cerimônias, só que em alto estilo de superficialidade e educação. Brigas entre mulheres com tapas estão sob a forma de disputa social e ostentação. Décadas depois, Christina Crawford (1978) publicaria em seu livro de memórias sobre a mãe que teria odiado o filme no ano em que assistiu. Joan Crawford não interpreta a personagem Eva, mas ela mesma quando está em casa bêbada e no seu pior, descreve Christina em sua ácida narrativa e, curiosamente, sempre colocando entre aspas a palavra "mamãezinha".

"When I saw her movie called Queen Bee about a year later I hated it. I found the entire film horrifying. That wasn’t any acting job on Mother’s part. It was exactly the way I knew her at home when she’d been drinking and was at her very worst. That woman on the screen really was my mother".
(CRAWFORD, Christina. 1978, p. 185)



Por infortúnio, a trágica e deliciosamente fotografada sessão de "Queen Bee", em que suas atuações e entraves outrora prometeram uma ótima ironia social, termina por rumos indesejáveis, inconvincentes e que funcionariam melhor em telenovelas. Todavia, o filme não envelheceu tão mal e não parece também que irá se cansar de exibir a talentosa figura de Eva. "Uma mulher tão sórdida que queremos vê-la morta", e eu cito observação pertinente do amigo Lucas Leigh a um dos quais esta análise é dedicada, além de que esta frase de efeito – também elucidada noutras palavras pelo crítico Bosley Crowther em The New York Times – foi caracterizada nas memórias de Christina Crawford como o resumo perfeito do filme.

MEL

"Ó, abelha-rainha
Faz de mim um instrumento
De teu prazer, sim, e de tua glória
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo de teu mel
Cavo a direta claridade do céu
E agarro o sol com a mão."


Mel, interpretada por Maria Bethânia.



Referência Bibliográfica

CRAWFORD, Christina. Mommie Dearest. 1st Ed. NY: Berkley Books, 1978.