sexta-feira, agosto 05, 2011

Desejo - Do Teatro ao Cinema


O autor de uma das peças mais importantes do século representa para a contemporaneidade um marco da cultura americana. Em 1947, Tennessee Williams é consagrado com o Prêmio Pulitzer pela peça “Um Bonde Chamado Desejo”. Em primeiro plano, o texto consiste numa mulher visitando a irmã em New Orleans, onde encontra uma forma de viver oposta a qual está acostumada e pela qual apresenta ao leitor, em desdobramentos de poderosas e viscerais discussões humanas, o tormento que viveu em seu passado. Na leitura de Williams, somos contemplados com uma construção de linguagem particularmente aprimorada, onde realidade e ilusão encontram-se de forma perversa e estimulada senão pela presença de um passado conturbado. O experimento de conhecer a personagem nos coloca quase como analistas frente a um paciente. É possível perceber melhor a sua personalidade por meio de atitudes e apenas um gesto, na dialética entre sofisticação e brutalidade, pode significar um novo desafio na compreensão das consequências de um passado conturbado. Em “Tennessee Williams’ South”, o autor afirma que o objetivo central do texto é propor a compreensão das pessoas delicadas. Indubitavelmente, Blanche DuBois é uma mulher delicada que esconde uma pesada carga de angústia sob a maquiagem de sofisticação e amor pelas artes. Dificilmente podemos passar por esta experiência literária sem notar a influência da vida do autor na sua obra.


Tennessee Williams, nascido Thomas Lanier Williams, no estado de Mississippi do início do século XX (26/03/1911), viveu muitos anos com excesso de problemas familiares. Desde novo apresentou dificuldades com a saúde e acredita que a sua fragilidade estimulou o pai alcoólatra a apoiar mais o irmão. Sua irmã sofria de esquizofrenia e terminou por realizar uma cirurgia de lobotomia, enquanto a mãe possuía um humor instável. O conturbado lar e, especialmente, a influência paterna fez o autor mais tarde constatar que o seu principal uso da escrita era para fugir da realidade, como ele próprio a caracterizara, uma vida profundamente desconfortável. A instabilidade emocional da mãe e a fragilidade de Williams podem ser diretamente identificadas em Blanche, uma personagem que precisa confrontar o brutamonte Stanley Kowalski, construindo assim os elementos de uma vivência que o leitor não consegue ter acesso diretamente e em grandes dosagens. Stanley é o marido da irmã de Blanche, um tipo másculo que domina plenamente a esposa e representa a classe operária na sua mais crua ignorância. Quando Blanche toma o bonde “Desejo” para visitar a irmã Stella Kowalski, depara-se com uma vida oposta a que vivia no antigo lar Belle Reve, que não é detalhadamente descrito durante a narrativa e aparenta essencialmente ser um sonho ou um lugar idealizado. Belle Reve representa para Blanche toda a sofisticação que ela sempre exigiu, mas que sempre esteve amarrada à decadência. O primeiro conflito se desenvolve quando Blanche diz que perdeu Belle Reve em função das mortes familiares e recorda Stella o peso de seu abandono à família para casar com Stanley e se mudar para New Orleans. Desconfiado de que existe algo por trás da perda misteriosa da propriedade da família DuBois, Stanley investiga a vida de Blanche e, pouco a pouco, revela ao espectador as vivências de Blanche enquanto professora de Inglês, na cidade de Laurel. Ao longo do desenvolvimento da narrativa, o leitor tem acesso ao passado de Blanche conforme os conflitos que se desdobram dos principais diálogos entre os personagens.

(Jessica Tandy, Kim Hunter, Marlon Brando - A produção da Broadway)

O confronto da realidade é um tema recorrente na obra de Tennessee Williams. Em “Um Bonde Chamado Desejo”, a relação entre Blanche e Stanley é simbolicamente a desconstrução dos contos de fadas que o autor propõe como reflexão sobre a sociedade americana. Blanche DuBois pode nos recordar da romântica Scarlett O’Hara, principalmente, pelo orgulho sulista e a ostentação dos bons modos, características marcantes em ambas figuras. Contudo, a tragédia de Blanche é ser obrigada a encarar uma realidade animalesca e nada refinada. Similar também à experiência com o pai, o autor pode ter empregado em Stanley Kowalski uma personalidade com traços abusivos à presença feminina. Kowalski não descansa enquanto não dirige à ruína o psicológico de Blanche, que antes de chegar já havia vivido um casamento falido e sua sublimação na vida boêmia, principalmente no abuso do álcool. Stella, a irmã de Blanche, mostra-se como uma mulher acostumada que aprendeu a gostar da vida simples que leva com o marido, deixando claro ao leitor que o seu prazer, a partir da submissa vivência com um operário robusto e dominador, não poderia continuar com a permanência de Blanche. Stella Kowalski é senão o personagem secundário mais bem elaborado por Williams, rente às figuras de Mitch e dos imigrantes norte-americanos. Sabemos que Stella quer o bem da irmã ao mesmo tempo em que precisa da sua liberdade para ser uma mulher comum.

(Kim Hunter e Marlon Brando - O casal apaixonado da adaptação cinematográfica, 1951)

O entretenimento preferido de Stanley Kowalski é o jogo de pôquer que religiosamente participa com três amigos – Mitch, Pablo e Steve. A sua ordinária rotina ratifica uma impressão possivelmente estereotipada do universo masculino. Neste plano de ideias, Blanche DuBois admite o seu horror pelo cunhado caracterizando suas noitadas como uma festa de macacos, e pretende assim planejar uma forma de salvar sua irmã desta vida de decadências. Surpresa, Blanche constata que Stella não quer abandonar e, mais que isso, gosta da vida que leva. Neste momento é que Blanche decide que precisa pelo menos salvar a si mesma e ao conhecer Mitch, vê no seu cavalheirismo uma oportunidade matrimonial que lhe tiraria de New Orleans. No entanto, Mitch depara-se com o passado misterioso de Blanche e desiste da possibilidade de apresenta-la a sua mãe doente. Conforme Blanche, as pessoas doentes alcançam um estágio espiritual superior no plano da expressão dos sentimentos. Não estaria a personagem, pela mão de Williams, referenciando a si mesma e ao seu criador? Blanche DuBois é considerada uma das personagens mais singulares na história da literatura americana e, conforme constatam os críticos da época, ela engendra um casulo linguístico para sua proteção.
Esta observação pode fazer o leitor ter uma percepção particular da composição da personagem.

(A noite do pôquer)

A gravidez da irmã é a oportunidade susceptível o bastante para um confronto final entre Stanley e Blanche. Quando ela é levada ao hospital, Stanley volta para casa e encontra Blanche no seu maior sonho acordado, e a violenta fisicamente. Desorientada e forçada a acreditar que um milionário do passado vem para acompanha-la numa temporada de descanso, uma Blanche emocionalmente abalada reluta até o final contra a ideia de ser internada num hospício. O delírio do seu ataque de nervos é apenas remediado por um gesto. Na última sequência da peça, Blanche é imobilizada por uma enfermeira e o médico, ao mandar que a solte, é contemplado pela gratidão de Blanche, eternamente conhecida pela sentença: “Quem quer que você seja, eu sempre dependi da bondade de estranhos”.

(O final de um clássico)

Temos em mãos duas adaptações ao cinema: a primeira é de 1951, dirigida por Elia Kazan, com Vivien Leigh e Marlon Brando;


Em 1995, dirigida por Glenn Jordon, com Jessica Lange e Alec Baldwin.


Curiosamente, entendo que de alguma forma as duas adaptações se completam. A produção clássica conta com as melhores atuações e uma trilha sonora magnífica, mas o texto foi simplesmente mutilado pela censura vigente na época. A versão para TV, notada por sua fidelidade visceral ao texto, consegue também uma ambientação bem detalhista do espírito sulista de New Orleans, mas o seu elenco peca por buscar similaridade numa escola de atuação da qual não poderia se aproximar com máxima eficiência. Elia Kazan consegue arrebatar às audiências mesmo com as limitações que lhe foram impostas e eterniza a peça no cinema clássico, onde totalizam 12 indicações ao Oscar e 4 vitórias: Melhor Atriz para Vivien Leigh, Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Hunter, Melhor Ator Coadjuvante para Karl Malden e Melhor Fotografia em Preto e Branco. A brilhante composição sonora de Alex North perdeu para Franz Waxman em “Um Lugar ao Sol”, assim como Marlon Brando, o eterno Stanley Kowalski da Broadway, perdeu para Humphrey Bogart em “Uma Aventura na África”. Nos extras do DVD especial duplo lançado pela Warner, é registrado um comentário pavoroso de Kazan afirmando que não acha Vivien Leigh uma boa atriz e que Jessica Tandy, a Blanche DuBois da Broadway, era quem deveria ter protagonizado o filme. Contudo, a necessidade de ter uma estrela para carregar o nome do filme falou mais forte, conforme admite Kazan nas críticas negativas feitas a sua própria produção. Especialmente, a maior delas está relacionada à censura. Os códigos de moral da época não permitiram que Stanley Kowalski deixasse a história sem ser punido e, como consequência disso, o final ganha um final extremamente moralista onde Stella deixa Stanley, levando o bebê para viver no andar acima, na casa de Eunice. Sem contar que o passado de Blanche é todo recortado, possivelmente confuso algumas vezes, onde o espectador não sabe exatamente o motivo que fez o primeiro casamento de Blanche falir: um marido gay surpreendido num affair com um homem mais velho. O trabalho suntuoso de Vivien Leigh diretamente nos obriga a desculpar estes equívocos em função do contexto cultural do início dos anos 50 e considerar o valor imensurável de sua performance.

(Vivien Leigh e o merecido Oscar de Melhor Atriz)

Adaptado para a TV, a peça de Williams possui uma duração de 2 horas e 36 minutos, na direção de Glenn Jordon, co-produção de Robert Bennett Steinhauer e direção fotográfica de Ralf Bode. Jessica Lange e Alec Baldwin estreiam como Blanche e Stanley. Duas coisas podem surpreender o espectador inicialmente, são elas: a fotografia e a fidelidade ao texto da peça. É um filme colorido que se destaca por conseguir ainda com isso recriar a atmosfera de New Orleans com propriedade e por manter os diálogos exatamente conforme as palavras de Tennessee Williams, fato que fornece à produção uma faceta respeitável. Contudo, a esquecível apresentação do lado animalesco de Kowalski, reproduzida pelo vistoso Alec Baldwin, parece de longe menos original que a emotiva Jessica Lange, uma Blanche DuBois muito singular para os anos 90, premiada no Globo de Ouro como Melhor Atriz.

(Jessica Lange e o merecido Globo de Ouro)



(Diferentes faces de um Stanley Kowalski)





Um trajeto visceral pela sexualidade 

que busca a compreensão das pessoas 

delicadas.



7 comentários:

  1. Muito bom o texto, Syl. Estou justamente escrevendo sobre Tennessee Williams no cinema.
    Que tal participar de um grupo seleto bem bacana? Vale a pena. A turma é ótima e a divulgação super interessante. Veja aí: http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/


    O Falcão Maltês

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  2. Syl, um favor: me ensina como colocar esse pano de fundo no blog...

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  3. Querido,

    Explêndido! de modo objetivo, mas também minucioso, você escreveu uma tese sobre este filme. Eu o assisti somente uma vez e não havia apercebido-me de tantos detalhes que mostram-se válidos. Uma filme sobre pessoas delicadas, realmente. Anyway, após assisti-lo mais detidamente, farei devidos comentários.

    Ótima semana prá ti. :)

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  4. Está idílica a Bette sobre o background! hehe

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  5. Olá! Adorei seu blog, muito criativo! Também tenho um blog e gostaria que vc desse uma olhada. O endereço é: http://www.criticaretro.blogspot.com/ Passe por lá! Lê ^_^

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  6. Amigo, venha participar do nosso novo teste cinematográfico. Katharine Hepburn é o tema.

    O Falcão Maltês

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